terça-feira, 4 de outubro de 2016

A menina que adorava Tom Gordon e a impotência do leitor



Por quanto tempo você sobreviveria sozinho numa floresta? Nesse livro pouco conhecido do Stephen King, Trisha McFarland se perde da mãe e do irmão durante uma trilha. Com apenas 9 anos, ela tem apenas um pouco de comida, uma capa de chuva e um walkman, para ajudá-la a sobreviver. 


Confesso que, entre os Stephen King que eu já li, esse foi o que me deixou mais angustiada. O narrador acompanha Trisha em sua jornada solitária pela floresta nos contando seus pensamentos e sentimentos, mas ainda assim nos deixa saber quando ela toma decisões ruins e o que acontece com os pais, ou o irmão, no exato momento em que descreve alguma ação dela. E esse foi, provavelmente o maior diferencial do livro. Somos informados pelo narrador de cada erro que ela comete, sabemos quando ela toma caminhos errados e como a polícia está seguindo pistas completamente equivocadas. Imaginar aquela menina sozinha, em uma floresta por dias e dias, tentando sobreviver e não agir como uma criança, é desesperador. 


Claro que apenas uma criança perdida em uma floresta escura não é material suficiente para King. Alguma coisa aterrorizante precisa se esconder no escuro. O perigo precisa estar à espreita. Algo está seguindo Trisha pela floresta, e acompanhando seus movimentos. Como bom escritor que é, ele apenas nos revela seu caçador no final do livro.


 Certamente, pessoas que acompanham ou mesmo as que apenas entendem as regras do baseball irão achar o livro ainda mais interessante. No seu desespero e solidão, Trisha imagina a presença do seu ídolo Tom Gordon, jogador de baseball, acompanhando-a e aconselhando-a na sua trajetória. Os capítulos são nomeados de acordo com os tempos do baseball, e, tendo como única companhia o seu walkman, ela consegue acompanhar alguns jogos durante os períodos mais assustadores das noites.

Essa foi uma leitura feita no kindle. Eu não encontrei esse livro para comprar, nem mesmo no site estante virtual, que conecta sebos de todo o Brasil. Mas, se você tem um leitor digital, ou mesmo não se incomoda de ler no celular, pc ou tablet, vale a pena procurar por “A menina que adorava Tom Gordon”. É uma leitura rápida, angustiante e viciante, daquelas que você só consegue largar quando termina.

 "O mundo tinha dentes e podia nos morder sempre que quisesse."

domingo, 2 de outubro de 2016

O iluminado, Doutor Sono e o mês do Stephen King



Não tem jeito melhor de começar o mês de outubro do que com uma resenha do mestre, do rei, do maravilhoso Stephen King. Nunca, nunca li um livro dele que eu não tenha gostado (ainda que não tenha lido nem metade) e embora seja um objetivo um tanto quanto pretensioso, ainda gostaria de conseguir um dia ler todos os livros dele. Parafraseando o Jonh Green, eu leria até a lista de compras do Stephen King.
 

 Aproveitando que a Mayra Sigwalt, do All about that book, convidou todo mundo para um projeto de leitura de livros do King, o All about King, resolvi focar nas leituras dele esse mês. Então, vamos começar com uma resenha dois em um. O iluminado (1977, Suma das letras; 463 pgs.), um dos mais famosos livros do King e Doutor Sono (2013, Suma das letras; 475 pgs.), a polêmica continuação publicada mais de 30 anos depois do começo da história.

O iluminado é uma daquelas histórias que praticamente todo mundo conhece. Famoso principalmente devido ao filme de Kubric com Jack Nicholson no papel principal, esse livro é um dos mais conhecidos. Eu já tinha visto o filme (mais de uma vez), mas ler O iluminado foi uma experiência muito diferente. O King já falou algumas vezes que não gostou da adaptação, e eu finalmente entendi porquê. Para os poucos que não conhecem a história, o livro gira em torno de uma família que vai passar o inverno em um hotel. Jack Torrance, o pai, é contratado como zelador enquanto as estradas ficam fechadas devido à neve, e espera usar o tempo livre e isolamento para se livrar dos seus problemas com a bebida, e finalmente terminar de escrever uma peça em que ele trabalha há tempos. O filho, Danny, é uma criança especial, iluminada. Ele consegue perceber coisas que ninguém mais percebe, ouvir e ver muito além do que as pessoas à sua volta. Mas o velho hotel Overlook tem segredos e feridas antigas, que a iluminação de Danny pode acordar e revelar. 

Eu sempre achei que, embora King seja conhecido como o mestre do terror, suas histórias são muito mais do que isso. Seus personagens são complexos, tridimensionais, com defeitos e qualidades extremamente reais. O terror, o sobrenatural, o horror é apenas o caminho que ele usa para nos mostrar a importância de outras coisas. E O iluminado não seria diferente. Observar a influência cada vez maior do hotel em Jack, que está se esforçando para ser um pai e marido melhor, seu drama pessoal na luta contra a loucura e o alcoolismo, em uma batalha solitária, sem ajuda profissional, ou mesmo apoio familiar, leva a um desenrolar ao mesmo tempo assustador e triste. O livro narra uma tragédia enquanto nos conta uma história de terror, e toda essa humanidade está ausente do filme. É difícil se identificar com os personagens do filme, enquanto os do livro são desconfortavelmente palpáveis.
"Cicatrizes velhas algum dia param de doer?" (O iluminado, pg. 164)
 
36 anos depois, King resolve nos contar o que aconteceu a Danny, o garotinho iluminado e traumatizado pelos eventos perturbadores que vivenciou no Overlook quando tinha apenas 5 anos. (E, sim, a sinopse de Doutor Sono acaba sendo um super spoiler de O iluminado. Mas quase todo mundo conhece a história, certo?) Danny agora é um homem de meia idade que enfrenta sua própria batalha contra o alcoolismo. Seu caminho se cruza com o de Abra, uma menina de 12 anos com o maior poder de iluminação que já se viu. Ambos precisarão se juntar para protegê-la do Verdadeiro Nó, idosos simpáticos que cruzam o país em trailer há séculos, e mantém sua imortalidade ao aspirar a essência exalada de crianças iluminadas quando torturadas lentamente até a morte. Só mesmo Stephen King para imaginar um enredo desse.

Citando a nota escrita por King em Doutor Sono, “nada pode se comprar à memória de um bom susto.” É claro que Doutor Sono nunca conseguirá causar o mesmo impacto que O iluminado. Ler os dois livros são experiências muito diferentes. O iluminado é, na minha opinião, um livro verdadeiramente assustador. Daqueles que te faz espiar em volta com medo durante a leitura. Doutor Sono não me deixou assustada. Mas, como eu disse, não acho que esse é o mote principal dos seus livros. Eu gostei dos personagens, adorei a história, e mais, do que tudo, Doutor Sono me fez ver O iluminado ainda mais como uma história trágica. Ambos os livros têm como protagonistas personagens alcoólatras. Mas, enquanto um deles tenta se livrar do seu vício sozinho, o outro procura o AA. E isso muda todo o desenrolar da trama. A busca por ajuda, a presença dos amigos, os laços afetivos são essenciais para o combate às forças sobrenaturais. Só com ajuda conseguimos vencer as nossas batalhas.

Além disso, outra coisa me deixou melancólica em Doutor Sono. Achei a personagem da Abra tão parecida com a Carrie, nos seus poderes, e tão diferente na sua família. O que nos leva à resenha de Carrie, e como a ausência do apoio familiar nos deixa vulneráveis. Mas essa é uma próxima postagem.


"Mas o tempo mudava. Algo que só bêbados e viciados compreendiam. Quando não se consegue dormir,  quando se tem medo do que vai encontrar ao olhar em volta, o tempo se alonga e cria dentes afiados." (Doutor Sono, pg.77)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Fábrica de vespas e os destinos não escritos



Como o hábito de ler histórias de terror e suspense é antigo, eu geralmente não levo à sério sinopses ou resenhas que definem um livro como chocante, ou perturbador. Porém, a leitura de Fábrica de vespas (Darkside, 2016; 240pgs.), conseguiu me deixar verdadeiramente abalada.
 
 
Narrado em primeira pessoa por um ‘psicopata em formação’, Iain Banks nos apresenta as peças do seu quebra-cabeça de maneira tão organizada, que quando percebemos já estamos completamente tomados pela bizarrice da história. Filho do meio de uma família absolutamente fora do normal, Frank Cauldhame é um adolescente que vive em uma ilha apenas com seu pai. A história começa no dia em que eles ficam sabendo que o irmão mais velho, Eric, conseguiu fugir do hospital psiquiátrico onde estava internado, e toda a trama se conduz com a aproximação de Eric da ilha.

É preciso grifar o quanto a família de Frank é incomum. Ao nos permitir, aos poucos conhecer os pedacinhos da história dos moradores da ilha e seus parentes mais próximos, bem como todos os rituais macabros realizados por Frank diariamente e as tantas maneiras que ele encontra para justificar estas ações, Iain nos torna quase cúmplices dos acontecimentos da história. Esse foi um livro que gerou polêmica na época do seu lançamento por seu conteúdo visceral. Imagino que muitos leitores podem simplesmente abandonar o livro logo nas primeiras páginas, pois Banks não nos poupa nem um pouco nas descrições das ações de Frank. E sendo quem é, Frank não se sente nem minimamente constrangido ao descrever seus atos presentes e passados. 
 

"Uma morte é sempre excitante, sempre faz com que você perceba o quão vivo e vulnerável está, mas quão sortudo é."

A sinopse compara o livro com Precisamos falar sobre o Kevin e com O senhor das moscas. Embora os temas sejam próximos, não espere uma leitura como a de um desses livros. Em Fábrica de vespas a narrativa em primeira pessoa pouco questiona ou condena os atos brutais do enredo. Raros são os personagens com quem conseguimos o mínimo de identificação. A família de Frank, como eu já disse, é absolutamente disfuncional. Já sabemos no começo da internação do seu irmão, e, com o passar das páginas vemos que seus primos, tios, pai e mãe não são muito mais confiáveis.

Acredito que, em suma, Fábrica de vespas é um livro sobre o poder. O controle que temos (ou que achamos ter) sobre nosso corpo e nossa vida. Uma história sobre como os nossos caminhos são imprevisíveis, e se alteram de maneira brutal a partir de mudanças tão sutis. 
 

"A fábrica é parte do padrão porque é parte da vida e - mais do que isso - parte da morte."

 A Fábrica de Vespas que dá nome ao título é o melhor exemplo da mente perturbada e, ainda assim, um tanto organizada e controladora de Frank. A maneira como ele vê a sua família e o mundo ao redor é sempre muito pragmática. É fantástico ver como a visão dele se adapta à grande revelação do livro. E a maneira como ele termina – ah, a maneira como ele termina! É um daqueles finais que vai te fazer questionar tudo o que leu, e dar vontade de ler tudo de novo para ter uma nova visão da história. 

"Nosso destino é o mesmo, no final, mas a viagem - em parte escolhida por nós, em parte não - é diferente para cada um e se altera enquanto crescemos."